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21/05/2018
“Eu abriria uma escola”: Mônica Molina fala sobre mercado da educação

Especialista em estratégia de negócios fala sobre o movimento de investidores em direção às escolas básicas — após o boom de fusões e aquisições no ensino superior

Mônica Molina falou à Revista Educação sobre mercado do ensino básico. Crédito: Gustavo Morita

 

Mônica Molina é sócia-diretora da Condere, empresa especializada em estratégia de negócios, fusões e aquisições — termos que recentemente entraram para o vocabulário de diretores de escolas e gestores de educação. Pós-graduada em marketing pela ESPM-SP e graduada em administração de empresas pela USP, Mônica também atua como docente no curso CFO Estrategista, na Educação Executiva do Insper-SP.

Nesta entrevista a Educação, a consultora traça um panorama das mudanças que rondam o setor de ensino básico, depois do boom de investimentos que mudou o per×l de faculdades e universidades privadas nos últimos anos. Com otimismo, mesmo diante da crise econômica, ela enxerga um momento favorável para o setor.

No negócio da educação, placas tectônicas se moveram nos últimos anos, principalmente no ensino superior. Dizem que o mercado caminha para educação básica. Como você está enxergando isso?

O que a gente tem visto, no mercado como um todo, é que o Brasil — enquanto consumo, serviços e geração de negócios — entrou no radar dos investidores. Se a gente voltar dez anos, estamos falando de mercado de capitais, de um IPO [empresas que lançam ações na Bolsa de Valores pela primeira vez] extremamente quente, quando o país entrou na agenda de decisão e as empresas e negócios passaram a ser analisados [por investidores e bancos] de forma comparável com outros mercados emergentes. Há relatórios, opiniões, recomendações de
investimentos.

Existem várias agências independentes especializadas em relatórios, e acabam cobrindo o mercado público. O mercado private [privado] acaba ×cando muito mais fechado e de difícil acesso — e é isso que permitiu, também nesses últimos dez anos, que as butiques de assessoria em fusões e aquisições ganhassem mercado, porte e presença global.

Antes, uma empresa precisava ser de grande porte para acessar o mercado de capitais. À medida que o mercado passou a ser mais acessível, empresas menores — desde que com boa governança e bom plano de crescimento — conseguiam construir uma tese de investimento atraente. Só que essas empresas de menor porte não têm perfil para um banco de investimento; o custo de atendimento deles não cabe no bolso de uma empresa menor. Foi isso que fez que as butiques ganhassem força — e para que ganhassem competitividade, algumas associações globais acabaram se formando.

Então foi um movimento do mercado financeiro em direção às escolas?

Da mesma forma que se falou muito de investimento em tecnologia, passamos por uma onda de investimento em saúde, em educação de nível superior, e agora está chegando a onda do ensino básico. A parte boa é que as escolas estão extremamente abertas à compreensão de que esse capital vem para o bem ou vem para o mal — e como pode fazer a diferença na vida dessa instituição. Eu tenho sentido os mantenedores e gestores se preparando para a entrada desse capital, seja em termos de software de gestão, seja em termos de visão de
futuro e no que o diferencial pedagógico vai sobreviver a uma integração de sistemas.

É um movimento de sobrevivência ou de oportunidade?

Na verdade, como esse mercado é extremamente fragmentado, eu acho que não é uma questão de “ou vai ou morre”. Eu não usaria a palavra sobrevivência. Eu acho que a parte bem boa que esse setor está vivendo é que você pode ter a escolha. E para que você possa escolher é superimportante que esteja preparado do umbigo pra fora.

Não é só a questão de reputação dessa escola. É como essa escola é gerida, como, em nível de transparência, se relaciona com as famílias, que índice de rematrícula tem, que tipo de critérios usa para escolher seus alunos, como se apresenta no Enem — se cria artifícios para ter um marketing ou se, de fato, tem uma massa de qualidade que permite bons resultados. É um conjunto de elementos que permite que a escola se prepare para acessar esses recursos. E, novamente, eu vejo como escolha.

Normalmente se busca a fusão, ou não, existe um tipo de investidor que diz “eu quero esse produto” porque ele é sofisticado ou específico?

O movimento que a gente vê é em busca de escala. Essa escala pode vir do volume, compram-se [número de] alunos, ou cresce por diferenciação, mas também em busca de escala, no caso, com DNA. Então você pode escolher, por exemplo, como o Grupo Bahema está fazendo, comprando prioritariamente escolas construtivistas, o que não signi×ca nada contra a qualidade de uma pedagogia ou outra. O que existe hoje é dinheiro para financiar qualquer tese de investimento. Pode ser uma tese de volume ou uma tese de diferencial.
O que valoriza uma escola? É já ter uma tecnologia de ponta, é um valor simbólico que a sociedade enxerga? O que a precifica?
Antes de falar em preço, a gente tem de entender se aquela tese vai ser de crescimento. Estamos falando de algo que vai dobrar, triplicar de tamanho no médio prazo, ou estamos falando de algo absolutamente maduro que está ali só para gerar caixa.

Existem escolas que têm um posicionamento, um modelo de negocio replicável e/ou escalável. Nesse caso, é um tipo de investidor que busca processo, organização, para permitir controle ao longo do processo de crescimento.

Isso tem um valor e uma forma de calcular preço. E existe aquele negócio que é um gerador de caixa, que é algo maduro, e pela qualidade e excelência você consegue ter outra forma de avaliar, dentro daquele tamanho. Esse movimento não vai necessariamente fragilizar as pequenas escolas?

Neste momento eu não vejo ameaça nenhuma para o status quo. O que a gente vê de bom, falando de escolas privadas no Brasil, é que são mais de 35 mil instituições. A gente está falando de um movimento de consolidação de 30 escolas, 40 escolas. Há grupos globais de educação com 50 unidades — e esse é um grupo internacional com 5 mil, 6 mil alunos. Há alguns grupos com 15 mil. Dentro de um universo de ensino privado no Brasil, de educação básica, de 50 milhões de crianças, não existe nenhum risco de alguém quebrar.

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