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21/07/2020
‘Nenhum estrangeiro pode ficar fora do Brasil’, diz sócio da Condere

Paulo Cury, sócio e fundador da Condere, explica os desafios e perspectivas para o setor de M&A

Paulo Cury: Quando a gente fala em M&A, o que vemos no macro é um impacto moderado, porque cada setor no Brasil foi impactado de uma maneira diferente – alguns mais, outros menos, e outros não foram impactados. Então nós temos tratado os setores de forma  muito individualizada, apoiando clientes sempre olhando a questão setorial.

Quais setores estão sendo mais promissores em
relação a fusões e aquisições?
Alimentos e Bebidas é um setor que a gente está vendo
pouquíssimo impacto, tirando quem está perto do
consumidor final, como os restaurantes. Distribuição de
alimentos, produtos secos e molhados e agronegócio,
tecnologia e internet e saúde, por exemplo, a demanda
também está muito positiva.
Poderia dar exemplo de empresas que estão
participando dessas operações no momento?
Estamos vendendo uma distribuidora de secos e molhados
que fatura mais de 400 milhões. Até agora eles tiveram o
crescimento de 6% acima do ano passado. Também
vamos trazer um investidor para uma empresa de
tecnologia de automação de força de vendas. Se já era um
setor importante, agora ficou ainda mais essencial com o
trabalho remoto. Essa empresa basicamente não teve
impacto de vendas e está investindo em novos produtos,
novos serviços.
Outro cliente que temos é uma empresa química que faz
basicamente produtos de desinfecção, como álcool em gel.
Esse mês eles fecharam o Ebitda (lucro antes de juros,
impostos, depreciação e amortização) que era projetado
para o ano todo.
E quais são os setores que estão sofrendo mais?
Vestuário, manufatura e relacionados à manutenção
industrial (pintura em fábricas e refinarias) estão em hiato
de demanda. A gente tem clientes que operam
manutenção industrial, por exemplo, que parte da
demanda da empresa que seria ao longo do ano vai
acontecer mais no final de 2020 ou no ano que vem. Para
esses, estamos mais focados em reestruturar e alongar o
perfil da dívida.
Como podemos explicar esse ‘desalinho’ de impacto
entre setores?
Os setores que tiveram queda na demanda são mais
ligados à atividade industrial. São importantes, mas que
nunca foram a ‘chave’ dentro da cadeia, pois são
prestadores de serviços. Outro fator é que a urgência das
empresas ficou maior. Quando se tem uma ruptura de
mercado, todos fazem as contas e passam a ser mais
cuidadosos, priorizando investir em negócios que são ‘core’
para a companhia.
Quando a Condere acredita que a demanda por
esses setores mais impactados vai voltar ao
normal?
Não acho que o mercado vai acelerar profundamente, mas
conforme a pandemia diminuir no mundo, os negócios vão
voltando ao normal. Minha expectativa é que no final do
ano, a partir de setembro ou outubro, a gente vá ter um
volume maior de negociações em setores que estavam
mais represados. O Brasil acaba sendo um país muito
resiliente.
Hoje vocês possuem quantas operações em
andamento na Condere?
Hoje temos 24 mandatos ativos dentro de casa. Desses eu
diria que 85% estão no ‘sell side’, ou seja, na ponta
vendedora. Os demais são ativos que estamos comprando
para clientes nossos. Recentemente, fechamos um negócio
de uma Retail Tech, empresa de tecnologia. Estamos com
alguns mandatos nessa área. Outros setores que podem
sair mais M&A são os de meios de pagamentos, seguros e
a parte de logística. A nossa expectativa é concluir nos
próximos meses mais ou menos cinco operações, fora o
que estamos fazendo de dívida.
Você acha que a crise abriu oportunidades em
M&A?
No geral eu diria que eu me surpreendi positivamente.
Quando começou (a pandemia) eu imaginei que o
momento ia ser mais difícil para o lado de negócios de
fusões e aquisições. A crise criou muitas oportunidades
pela troca de posições que foram forçadas a acontecer. As
empresas tiveram que repensar o que fazer com seus
ativos, por exemplo. O empresário que estava em um nível
de endividamento elevado também passou a ver que
precisa reestruturar o seu capital. Então, esse tipo de
momento acaba tendo muita troca de posição e
oportunidades.
Quais são as principais preocupações das empresas
que estão em processo de M&A na crise?

A impressão é que as empresas também aprenderam a
trabalhar e se desenvolver nesse período. Muitas estão
desistindo de negócios que não são o ‘core’ e estão
buscando trazer investidores para se fortalecer. Outras que
estavam com uma folga de caixa estão buscando
oportunidade de comprar ativos e se expandir.
Uma terceira preocupação importante que vemos é
alongar o perfil de endividamento para ter mais fôlego de
caixa. Nesse momento, todo mundo está cuidando muito
do caixa, e as empresas estão com uma preocupação
enorme em ter liquidez.
Os compradores estão mais cautelosos?
O que observo é que o investidor não deixa de fazer o
negócio, mas a cautela pode ser traduzida na estrutura da
transação, com uma mudança na forma de precificar.
Agora, em vez de fazer uma transação em que o
comprador vai pagar 100% do negócio de vez, ele compra
uma participação menor e deixa um pedaço para adquirir
ao longo do tempo, que no fim vai ser menos risco para
quem está comprando e também ajuda quem está
vendendo.
E como estão os preços dos ativos?
Isso é uma coisa interessante. Em um momento como
esse, com alguns setores sofrendo, as empresas que estão
melhores acabam sendo mais valorizadas. Então, não
vemos uma redução em preço de ativos, mas sim que,
para empresas que estão em setores com demanda, não é
o momento de vender.
Como está o olhar do investidor estrangeiro para o
Brasil?
O Brasil está sendo bombardeado pela mídia lá de fora.
Não entro no mérito se é errado ou correto, mas o ‘gringo’
está mais longe do País, e precisamos muitas vezes ter um
trabalho de apresentar para o investidor estrangeiro as
oportunidades. Até porque hoje, com esse nível de
câmbio, é um momento favorável para entrar no País. E
ninguém pode ficar fora do Brasil se quiser ter uma
posição global dominante, considerando o tamanho da
população e o mercado que temos. Estamos conversando
com investidores na Espanha e na Alemanha. Estamos
fazendo negócio com empresas mexicanas também.
E o contrário? Há empresas dispostas a vender as
operações no Brasil?
Estamos com uma operação de uma empresa mexicana
que decidiu sair do Brasil. Então, eles olharam e decidiram
concentrar esforços no mercado mexicano. Nesse
momento, são muitos negócios e rearranjos dentro de
cada um dos segmentos. Mas não posso dizer que tem
mais dessas operações de saída do País hoje do que tinha
antes.

 

Estadão . E-investidor . Mercado
Jenne Andrade . jennefer.andrade@estadao.com

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